
Sonhos de Trem é uma grande surpresa que me impactou profundamente, mesmo sem que eu tivesse expectativas altas antes de dar o play. O drama dirigido por Clint Bentley é uma obra sutil, delicada e poderosa, que respira através de imagens e sentimentos mais do que por meio de diálogos óbvios ou reviravoltas espetaculares.
O que mais saltou aos olhos — e ao coração — foi a fotografia de Adolpho Veloso. O trabalho dele não é apenas bonito: ele constrói atmosferas. A câmera não registra apenas paisagens; ela traduz estados de espírito. Os planos amplos das florestas, a luz natural meticulosamente capturada e a composição poética das imagens dão ao filme uma linguagem visual que permanece com você muito depois do fim dos créditos. Essa estética cuidadosa rendeu a Veloso prêmios importantes como o Globo de Ouro, além de uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Fotografia.

No centro dessa tapeçaria visual está Joel Edgerton, cuja performance é contida e profunda. Ele interpreta Robert Grainier, um lenhador do início do século XX que vive uma existência simples e, aos poucos, devastada pelo luto e pela solidão. Edgerton transmite com precisão cirúrgica o vazio deixado por perdas irreparáveis — algo que, especialmente para quem tem filhos pequenos, ressoa de maneira visceral. Não se trata de performances explosivas, mas de nuances: um olhar que carrega um mundo, um silêncio que diz mais do que palavras.

O filme lida com o luto de uma maneira complexa e incerta. Não sabemos claramente o destino de algumas pessoas que foram importantes na vida de Robert, e a própria narrativa parece refletir a ambiguidade do que significa perder alguém e seguir em frente. Esse vazio narrativo é proposital — ele ecoa a própria experiência humana de lidar com perguntas sem respostas claras. Isso torna o final agridoce: há fechamento, mas também há espaço para reflexão, e isso é uma das maiores virtudes da obra.

O roteiro não busca glamourizar a vida do protagonista nem amarrar todas as pontas. Ao contrário, ele nos deixa dentro da cabeça do personagem por mais tempo, fazendo com que o espectador carregue o filme consigo muito depois de terminar de assistir. Essa sensação de continuidade, de história que ultrapassa a tela, é rara e preciosa.

Em um ano cheio de filmes intensos e disputas acirradas nas principais premiações, Sonhos de Trem merece estar entre os mais comentados. É uma obra sobre tempo, sobre perdas, sobre como caminhamos por nossas dores e, ainda assim, encontramos formas de sobreviver. Não por acaso está entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme de 2026, e sua força principal está justamente no modo como nos convida a refletir sobre a vida e suas incertezas.
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