
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, dirigido por Chloé Zhao, é um filme que tem alma — daqueles que conseguem mexer com a gente de forma profunda e duradoura. A narrativa se concentra em Agnes Shakespeare, vivida por Jessie Buckley, cuja performance é tão intensa e visceral que se sobressai como o coração pulsante da obra. Buckley, que já ganhou o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards pela atuação e está fortemente cotada ao Oscar de Melhor Atriz, entrega uma interpretação arrebatadora, capaz de traduzir com brutal honestidade a dor e o desamparo de uma mãe no luto mais profundo.
O jovem Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet, também merece destaque: sua presença impacta a narrativa de modo sutil, mas fundamental, dando corpo àquilo que é perdido e deixando um eco emocional que reverbera ao longo de todo o filme.
Ao lado de Buckley, Paul Mescal (“Aftersun”, “Gladiador II”) compõe um Shakespeare sensível e melancólico, oferecendo uma atuação igualmente belíssima que traz nuances de um homem dilacerado pela perda. Embora não tenha recebido a indicação ao Oscar até aqui, sua performance como parceiro e pai fragilizado é uma das camadas mais humanas da trama.

A direção de Chloé Zhao se firma como uma das mais refinadas de sua geração. Ela conduz Hamnet com um olhar empático e uma paciência narrativa que se encaixa perfeitamente no tema do filme: a maneira como o luto molda, transforma e, paradoxalmente, ilumina a vida de quem sobrevive. A fotografia, assinada por Łukasz Żal, é simplesmente deslumbrante — luminosa, orgânica e muitas vezes dolorosamente bela, conseguindo tornar cada plano uma extensão do estado emocional dos personagens.

Assim como em Priscilla, de Sofia Coppola, onde o foco narrativo na protagonista transforma uma figura histórica maior em uma experiência íntima e singular, Hamnet opta por olhar para o drama humano antes do mito. Não sentimos falta de Shakespeare como ícone — sentimos a falta de Hamnet, sentimos a ausência e o silêncio — porque o filme sabe exatamente onde quer pôr o olhar.
Há, porém, um elemento que pode desafiar parte do público: a forte imersão na linguagem shakesperiana e os momentos de monólogo ou referências ao teatro podem soar “difíceis”, especialmente para quem não está familiarizado com o universo do dramaturgo. Mas é justamente esse compromisso com a linguagem e a autenticidade da época que confere ao filme sua densidade e precisão emocional.
Hamnet é uma obra de grande sensibilidade — um filme sobre amor, perda e a maneira como transformamos dor em arte. Não por acaso foi um dos grandes vencedores no Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama, e figura entre os fortes candidatos ao Oscar de Melhor Filme de 2026.
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