
“O Morro dos Ventos Uivantes” apresenta-se como uma releitura que tempera a narrativa com uma fotografia sofisticada, figurinos e penteados deslumbrantes, destoantes da época retratada, e uma atmosfera abertamente sensual, transformando o drama gótico em um espetáculo estético.
O resultado é uma obra que privilegia a beleza visual em detrimento da aspereza emocional do romance original, suavizando a obsessão, a violência simbólica e a tragédia que definem a história de Emily Brontë.
Talvez seja justamente por isso que a diretora Emerald Fennell tenha optado por apresentar o título do filme entre aspas: como um aviso de que não se trata de uma reprodução fiel da obra original, mas de uma leitura autoral e deliberadamente distanciada do romance.
A própria Fennell afirmou que seu filme não pretende ser O Morro dos Ventos Uivantes tal como concebido por Emily Brontë, mas uma versão moldada por suas próprias escolhas criativas, na qual acontecimentos inéditos e desvios narrativos surgem mesmo quando inexistentes no texto literário.
Visualmente, o filme é deslumbrante: paisagens áridas, fotografia sofisticada e uma atmosfera sensual transformam o drama gótico em um espetáculo essencialmente estético.
Entretanto, a escolha de Jacob Elordi para viver Heathcliff descaracteriza um dos pilares centrais da obra original: a identidade étnica e social do personagem. No romance de Emily Brontë, Heathcliff é descrito como um menino de aparência cigana, sujo, faminto e deslocado, alguém que carrega no corpo e na alma as marcas da exclusão e do preconceito.

A narradora Nelly Dean descreve sua chegada da seguinte forma: “Aglomeramo-nos ao redor e, por cima da cabeça da senhorita Cathy, vislumbrei um pequeno cigano de pele escura, maltrapilho.”
Esse aspecto não é meramente estético: ele fundamenta toda a violência simbólica sofrida pelo personagem dentro da família Earnshaw e na sociedade local. Heathcliff é visto como um intruso, alguém que nunca pertence de fato, e é justamente essa marginalização que molda sua personalidade amarga, vingativa e apaixonada.
Ao escalar um ator branco e inserido nos padrões tradicionais de beleza, a adaptação ignora esse elemento essencial da narrativa, esvaziando o debate sobre racismo, alteridade e exclusão social presente no texto original. A mudança não apenas altera a aparência do personagem, como também enfraquece o impacto emocional e político da história, transformando Heathcliff em um anti-herói romântico genérico, distante da figura trágica e complexa criada por Emily Brontë.
A retirada de Hindley Earnshaw, o irmão ciumento e desprezível de Cathy, é outra alteração significativa em relação ao romance. No livro, ele é o principal responsável pela humilhação e degradação de Heathcliff, rebaixando-o à condição de servo e instaurando a lógica de violência e exclusão que molda sua personalidade vingativa.

Outro ponto que causa estranhamento é a exclusão dos filhos dos protagonistas. Ao suprimir Linton, Linton Heathcliff e Hareton, o filme abandona a dimensão geracional que confere profundidade ao romance de Emily Brontë. Essa escolha transforma uma narrativa sobre herança emocional, violência social e ciclos de ressentimento em um drama centrado quase exclusivamente no desejo e na paixão.
Do ponto de vista visual, o filme se impõe como um espetáculo de forte impacto estético. As paisagens ásperas e abertas são filmadas com elegância quase pictórica, enquanto a fotografia constrói imagens que evocam um romantismo sombrio, situado entre o belo e o inquietante.
A direção aposta em uma atmosfera carregada de sensualidade e estilização, transformando o drama gótico em uma experiência essencialmente sensorial. Figurinos exuberantes e cenários que beiram o onírico reforçam essa opção por uma narrativa visualmente sedutora, ainda que, por vezes, distante da rudeza emocional e da tensão psicológica que caracterizam o romance original. O resultado é um filme que encanta os olhos, mas frequentemente substitui a brutalidade trágica da história por uma beleza cuidadosamente composta.
A química entre o casal protagonista é intensa e funciona como o principal motor emocional da narrativa; contudo, esta versão opta por privilegiar o desejo e a provocação em detrimento da complexidade psicológica dos personagens. A adaptação de Emerald Fennell concentra-se quase exclusivamente na dimensão física e sensual da relação entre Catherine e Heathcliff, aproximando-se mais de um drama erótico estilizado do que de um estudo trágico sobre obsessão e ressentimento geracional.

É preciso ir ao cinema de coração aberto para assistir a este filme, sem esperar uma releitura fiel do maravilhoso romance de Emily Brontë. Como leitora da obra original, confesso que me senti decepcionada em diversos aspectos; ainda assim, escolhi acolher o longa como algo inteiramente novo, uma experiência autônoma. E, ao fazê-lo, fui surpreendida.
Para quem se deixa envolver, a adaptação revela-se ousada e hipnótica: ao enfatizar a fisicalidade e o desejo, transforma a narrativa em uma experiência sensorial intensa, na qual imagem, som e atuação se fundem para expressar a paixão destrutiva entre Catherine e Heathcliff.
A química magnética dos protagonistas sustenta o filme e confere nova vitalidade a O Morro dos Ventos Uivantes, tornando-o mais visceral e contemporâneo.
Em vez de buscar fidelidade literal ao romance, a obra aposta na emoção crua e no impacto estético, resultando em um filme provocador, que seduz justamente por sua liberdade criativa e por assumir o amor como uma força obsessiva, caótica e arrebatadora.
Ainda assim, apesar de sua força estética e emocional, o filme perde muito ao abdicar da crítica social tão presente no romance de Emily Brontë. Ao deixar em segundo plano as questões de classe, exclusão e violência estrutural que moldam o destino de Heathcliff, a adaptação esvazia parte do impacto trágico da história e reduz a complexidade do conflito a uma paixão essencialmente sensorial.
O resultado é uma obra bela e provocadora, mas que abre mão de uma das camadas mais profundas e incômodas do livro: o retrato cruel de uma sociedade que transforma o amor em obsessão e o ressentimento em herança.
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