
A Última Casa tinha tudo para ser um filme muito interessante. A ideia de uma ameaça desconhecida, inicialmente cercada de mistério e posteriormente associada a algo que já existia na própria Terra — vindo das profundezas do oceano — abre espaço para discussões muito mais interessantes do que o filme efetivamente se propõe a fazer.
Existe, inclusive, uma camada existencial muito rica nessa premissa: a humanidade acredita conhecer o planeta em que vive, mas ainda existem regiões e formas de vida que desconhecemos completamente. E isso conversa muito com aquela famosa ideia atribuída a Arthur C. Clarke de que é curioso chamarmos o planeta de “Terra” quando ele é, em sua maior parte, coberto por água. É um conceito que poderia render um ótimo filme sobre nossa insignificância diante de algo que sequer compreendemos.
Mas A Última Casa não está interessado nisso.

O principal problema está justamente no roteiro, que limita demais o potencial da própria premissa. O filme poderia estimular especulações entre os personagens, apresentar pistas contraditórias, permitir que eles construíssem teorias sobre o que estava acontecendo e, principalmente, manter o espectador tão perdido quanto eles. Mas muitas dessas possibilidades são simplesmente descartadas. Até decisões aparentemente pequenas, como cortar completamente determinadas formas de comunicação, acabam reduzindo as possibilidades narrativas em vez de ampliá-las.
E isso se torna ainda mais frustrante porque o filme parece não saber exatamente que tipo de história quer contar. É drama familiar? Terror? Suspense? Ficção científica? Sobrevivência? No fim, ele tenta transitar por todos esses gêneros, mas raramente consegue fazer qualquer um deles funcionar de maneira realmente satisfatória.
A própria dinâmica familiar também é difícil de comprar. Em determinado momento, o filme parece gastar tempo demais mostrando os personagens felizes, unidos e relativamente confortáveis naquele confinamento. Só que estamos falando de pessoas que, aparentemente, testemunharam o colapso da humanidade. Todo mundo morreu. Não existe praticamente ninguém além deles. E, ainda assim, sentimos pouquíssimo peso emocional nisso.
Cadê a saudade dos familiares? O medo pelo que aconteceu com o restante do mundo? O desespero de não saber se alguém sobreviveu? A sensação de que aqueles quatro podem ser literalmente os últimos seres humanos do planeta?
Essas questões poderiam dar uma densidade dramática enorme aos personagens. Em vez disso, o filme frequentemente apresenta uma tranquilidade que parece incompatível com a situação em que eles estão inseridos. O próprio Jason, personagem de Wagner Moura, chega a verbalizar que está até mais feliz com aquela vida naquele momento. E fica difícil entender como essa deveria ser uma escolha emocionalmente convincente diante de um cenário de extinção.

Existe uma linha narrativa que, para mim, funciona muito melhor: o momento em que uma das vizinhas aparece e acaba sendo atacada pela criatura. Ali existe tensão, existe mistério e existe a sensação de que o mundo exterior finalmente está invadindo aquele pequeno espaço de segurança. É provavelmente o momento mais interessante do filme — justamente porque parece apontar para um caminho que poderia ter sido muito mais explorado. Só que, novamente, A Última Casa abandona essa possibilidade.

E então chegamos ao maior problema da história: a resolução.
O filme passa boa parte da duração construindo aquela ameaça como algo misterioso, incompreensível e praticamente imparável. Tudo parece indicar que estamos diante de uma força capaz de dizimar a humanidade. E, no fim, a solução é basicamente um ato de misericórdia.
Depois de toda aquela construção, o monstro simplesmente poupa os protagonistas após uma demonstração de compaixão deles. E é aí que a coisa desmorona completamente. Porque, se o planeta inteiro foi dizimado e aquelas quatro pessoas receberam uma espécie de “colher de chá”, fica difícil não perguntar: por quê? O que torna justamente aquelas pessoas especiais? O que isso significa dentro da lógica estabelecida pelo próprio filme?
Não existe uma resposta satisfatória.
E talvez esse seja o maior problema de A Última Casa: ele apresenta perguntas muito melhores do que as respostas que está disposto a oferecer.

É uma pena, porque o elenco merecia muito mais. Greta Lee é uma ótima presença e faz o que pode com o material que recebe. Mas quem realmente se destaca é Wagner Moura. Ele está muito bem no papel de Jason e, sinceramente, foi justamente por causa dele que eu assisti ao filme.

Com isso, A Última Casa é, para mim, um dos filmes mais decepcionantes do ano. Não porque sua premissa seja ruim — muito pelo contrário. É justamente porque existe uma ideia tão interessante escondida ali que fica ainda mais frustrante perceber o quanto o filme poderia ter sido diferente.
Um filme que tinha uma ótima pergunta, mas nunca encontrou uma boa resposta.

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