
Existe, no Brasil, uma resistência histórica e quase automática ao cinema nacional. Para uma parcela expressiva do público, o simples rótulo “filme brasileiro” ainda carrega preconceitos prontos. Obras supostamente lentas, estranhas, excessivamente políticas ou consideradas difíceis demais. Essa rejeição, porém, raramente está ligada à falta de qualidade artística. Na maior parte das vezes, ela nasce de um processo mais profundo e estrutural: o imperialismo cultural que moldou o olhar do espectador brasileiro ao longo de décadas.
Hollywood não se consolidou apenas como a maior indústria cinematográfica do mundo, mas como um modelo estético universal. Suas narrativas clássicas, ritmo acelerado, estruturas previsíveis e linguagem acessível foram naturalizadas como sinônimo de cinema de qualidade. Tudo o que foge desse padrão tende a causar estranhamento e, no Brasil, o estranhamento frequentemente é interpretado como defeito.

O cinema nacional, por sua vez, historicamente se recusou a se moldar totalmente a essa lógica. Em vez de reproduzir fórmulas, optou por dialogar com a realidade social, política e cultural do país. O resultado foi uma ruptura. Enquanto o cinema brasileiro buscava identidade, grande parte do público já havia sido educada a rejeitar tudo o que não soasse hollywoodiano.
Essa recusa não foi acidental. Movimentos como o Cinema Novo surgiram justamente para romper com o modelo dominante. Cineastas como Glauber Rocha defendiam um cinema autoral, político, esteticamente ousado e profundamente conectado à realidade brasileira.

Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe não buscam o entretenimento fácil. Eles propõem reflexão, choque, desconforto e identidade. A ruptura com a linguagem clássica não acontece por limitação técnica, mas por escolha artística consciente. Ainda assim, essa ousadia estética foi, durante décadas, usada como argumento para afastar o público.
A contradição se torna evidente quando observamos o reconhecimento internacional desse cinema. Martin Scorsese, um dos diretores mais influentes da história do cinema, é admirador declarado de Glauber Rocha. Mais do que isso, há influências diretas de Terra em Transe na linguagem de After Hours, um dos filmes mais celebrados de sua carreira.

Ou seja, aquilo que parte do público brasileiro rejeita é estudado, reverenciado e incorporado por cineastas consagrados no exterior. O problema, portanto, não está na qualidade do cinema nacional, mas na forma como aprendemos a enxergá-lo.
Nesse cenário, o papel dos festivais e prêmios internacionais se torna estratégico. Reconhecimentos em eventos como Festival de Cannes, Globo de Ouro e Oscar ajudam a romper o preconceito interno, fazendo com que o próprio brasileiro perceba que há, sim, cinema de altíssimo nível sendo produzido no país.
Além disso, esses prêmios funcionam como incentivo direto para novas gerações de cineastas, mostrando que não é necessário abandonar o Brasil ou imitar Hollywood para criar obras relevantes e universais.

Filmes recentes como O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, exemplificam esse movimento com clareza. Trata-se de uma obra profundamente enraizada na realidade brasileira, que aborda política, território e identidade, e que ainda assim conquistou público e reconhecimento internacional.
Nomes como Wagner Moura e Fernanda Torres cumprem hoje um papel fundamental como guardiões do cinema nacional, mantendo viva uma tradição artística que dialoga com o passado e projeta o Brasil para o futuro.

O imperialismo cultural não apenas distorce o gosto do público, mas também freia o desenvolvimento simbólico de um país, silenciando suas próprias narrativas em favor de modelos importados. Romper com essa lógica é urgente.
Apreciar, defender e consumir o cinema brasileiro não é apenas uma questão de preferência pessoal. É um ato de consciência cultural. Somente ao quebrar essa barreira o Brasil poderá ocupar, com voz própria, o espaço que lhe cabe no cenário cultural mundial. O cinema é uma das ferramentas mais poderosas para isso.
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