
Atenção: este artigo contém spoilers do filme. Caso não queira ser surpreendido, volte após assistir.
Michael é, antes de qualquer coisa, um filme feito para fãs. E talvez essa seja justamente a melhor maneira de entender a produção dirigida por Antoine Fuqua.
O longa não parece interessado em revisitar de forma crua ou investigativa todas as controvérsias da vida de Michael Jackson. Pelo contrário: existe uma intenção muito clara de transformar Michael em uma figura quase mítica, numa verdadeira jornada de herói construída para celebrar seu legado artístico e cultural.
E, honestamente, essa decisão faz sentido dentro da proposta do filme.
Assista ao trailer de Michael:
Mesmo com declarações de Paris Jackson afirmando que alguns aspectos mais pesados da vida do pai foram suavizados ou romantizados, o filme parece consciente disso desde o início.
Ao invés de mergulhar profundamente nas partes mais sombrias da trajetória do cantor, a narrativa escolhe preservar a aura quase lendária que Michael representa para a cultura pop. E é difícil negar que ele ocupa esse lugar: para muitas gerações, Michael Jackson não foi apenas um artista, mas um símbolo absoluto da música, do espetáculo e da própria ideia de estrelato global.

Ainda assim, o longa não ignora completamente os traumas do cantor. A relação com Joe Jackson é retratada de maneira triste e desconfortável, embora o filme opte por focar mais na pressão psicológica do que na violência física amplamente discutida ao longo dos anos.
Existe um esforço em mostrar como aquela infância moldou a personalidade de Michael, especialmente nos momentos em que a obra explora sua inocência quase infantil — mas uma inocência marcada por trauma, solidão e fuga emocional.
A conexão dele com animais, as referências constantes a Peter Pan e a tentativa desesperada de preservar uma infância que nunca existiu funcionam como alguns dos momentos mais humanos e interessantes do filme.

Mas o coração da produção está no espetáculo. Cerca de 70% do longa é composto por performances musicais, e isso deixa ainda mais evidente que o objetivo principal é celebrar o artista no palco.
Nesse sentido, Jaafar Jackson impressiona de verdade. Mesmo sendo seu primeiro trabalho como ator, ele entrega uma performance extremamente convincente, capturando maneirismos, energia e presença de palco de maneira assustadoramente próxima da original.
O fato de Jaafar ser sobrinho de Michael — filho de Jermaine Jackson, integrante do The Jackson 5 — adiciona uma camada emocional interessante à experiência.

O problema é que, justamente por tentar transformar a cinebiografia em uma grande celebração dos maiores momentos da carreira de Michael, o roteiro acaba atropelando o próprio desenvolvimento narrativo.
As décadas passam rápido demais, quase sem transição, criando uma sensação de desconexão entre as diferentes fases da vida do cantor. Em muitos momentos, o filme parece ter medo de deixar algum sucesso musical de fora, e isso prejudica o refinamento dramático da obra.
Há uma sensação constante de pressa, como se o longa estivesse correndo contra o tempo para encaixar todos os momentos icônicos da carreira de Michael em uma única narrativa.
Essa irregularidade talvez dialogue até com os problemas de bastidores enfrentados durante a produção. O roteiro parece fragmentado em alguns pontos, mais preocupado em construir uma sequência de grandes momentos do que uma progressão dramática verdadeiramente consistente.

O acidente envolvendo a campanha da Pepsi aparece como um dos momentos mais dramáticos do filme e corretamente ganha importância dentro da narrativa.
Ainda assim, existe uma sensação de que a obra poderia ter aprofundado mais as consequências físicas e emocionais daquele episódio, especialmente porque ele teve impacto direto não apenas na dor que Michael passou a sentir, mas também nas mudanças estéticas que marcariam sua imagem dali em diante.
O longa toca nesse assunto, mas de maneira relativamente superficial.

No fim das contas, Michael funciona muito mais como uma celebração do que como uma análise definitiva sobre o homem por trás do mito.
E talvez seja injusto exigir outra coisa dele. O cinema também serve como ferramenta de memória, legado e emoção coletiva.
É compreensível que críticos mais interessados em profundidade biográfica encontrem limitações no roteiro e na estrutura do filme. Mas também fica claro que essa nunca foi a prioridade da produção.
O filme foi feito para quem entra no cinema querendo reviver a magia, cantar mentalmente cada música e sair da sessão com a sensação reforçada de que Michael Jackson continua sendo, para muitos, o Rei do Pop — e talvez o maior artista da história.
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